ERA MEIJI - ESTILO HITEM MITSURUGI

                                               



A ERA MEIJI - criador do estilo Mitisurugi - e a OBRA RUROUNI KENSHIN:
MODERNIZAÇÃO, TENSÕES E DISPUTAS NA CONSTRUÇÃO DO “NOVO” JAPÃO
Mostraremos com este artigo as familiaridades entre o manga Samurai X e os conflitos existentes no Japão tendo como foco principal discutir alguns aspectos do fim do shogunato e da Era Meiji na segunda metade do século XIX, O escritor do mangá Rurouni Kenshin, de Nobuhiro Watsuki, enfoca as tensões e conflitos que marcaram esse período, e que desembocaram na modernização japonesa em plena época imperialista.


A obra Rurouni Kenshin, do autor Nobuhiro Watsuki, inicialmente publicada em 1994, é considerada uma verdadeira obra-prima dos mangás (história em quadrinhos japoneses), e tido como uma oba classica, não somente por
apresentar personagens carismáticos e impactantes, mas, sobretudo, por seu enredo, que é baseada em um dos períodos mais turbulentos da história do Japão: a denominada “Revolução” ou “Restauração” Meiji,
Finalizada em 1868, e seus futuros desdobramentos para a sociedade japonesa como um todo.
A narrativa é focada no Japão da segunda metade do século XIX, mais especificamente o período
de transição do regime Tokugawa à Era Meiji, em que o shogunato, regime político estabelecido,
desde 1603, por Tokugawa Ieyasu (1542-1616), foi derrubado a partir de um processo que durou
décadas e que foi marcado por uma sangrenta guerra civil opondo os defensores do shogunato aos
partidários de uma nova ordem que seria principiada com a Restauração da monarquia e a posterior
modernização das estruturas socioeconômicas, políticas, culturais e militares que, de acordo com o
projeto dos “restauradores”, era de fundamental importância para uma inserção proeminente do país
no quadro das relações internacionais e fundamental para a própria sobrevivência do Japão
enquanto país soberano, situação que estava consideravelmente ameaçada pelo avanço das
principais potências ocidentais (Inglaterra, Holanda, EUA, França), no âmbito do período
conhecido como imperialismo (ou neocolonialismo), ocorrido na segunda metade do século XIX, e
que foi caracterizado pela disputa entre as nações imperialistas por mercados consumidores e com a conseqüente instauração de inúmeras colônias formais e/ou informais, fundamentalmente na África e na Ásia.
O enredo de Rurouni Kenshin gira em torno do personagem Kenshin Himura, um samurai com uma cicatriz em forma de “x”, localizada em sua face esquerda, que se diz um andarilho (daí o nome Rurouni) e que é possuidor de uma sakabatou, uma espada de lâmina invertida.
                                      
Com uma personalidade serena e gentil, sua aparência transmite tranqüilidade e segurança, o que faz com que sua presença passe despercebida em cada local por onde anda. A vida de Kenshin é alterada no momento em que conhece Kaoru Kamiya, uma shihandai2 do dojo3 Kamiya. Kaoru ensina neste dojo o estilo Kamiya Kasshin, criado por seu pai e que prega a filosofia da “espada para a vida”,
isto é, ensina o uso da espada com a finalidade única de proteger, e não matar. Kenshin ajuda Kaoru a afastar um grupo de assassinos que estavam interessados em adquirir o terreno do dojo Kamiya, os quais utilizavam como principais meios de persuasão freqüentes ameaças e intimidações. Como
esse terreno era financeiramente muito valioso, o grupo tenta fazer com que Kaoru o venda a uma quantia irrisória. No meio dessa luta, Kaoru descobre que Kenshin Himura é na realidade o lendário Hitokiri(4)Battousai, o Retalhador, um samurai monarquista muito poderoso que retalhava seus inimigos na época da guerra civil, promovendo verdadeiras carnificinas e limpando o caminho para a Era Meiji, desaparecendo repentinamente logo depois do fim do shogunato, tornando-se uma
espécie de lenda desse período. No instante em que a história de Rurouni Kenshin se inicia, no ano 11 da Era Meiji (1878),
na localidade de Shitamachi (Tóquio), já se passaram 10 anos desde o fim do Bakumatsu(5) e vemos um Battousai transformado. Kenshin revela a Kaoru que mesmo que ele tenha sido anteriormente o temível Battousai, o Retalhador, sua espada e seu estilo "Hiten Mitsurugi",



O ataque final do estilo Hiten Mitsurugi, chamado Amakakeru Ryu No Hirameki, é um Battoujutsu, uma técnica que tem como objetivo derrotar o oponente com um único golpe, a partir do desembainhar da espada. O Battoujutsu em si é executado com uma velocidade muito acima do normal, para que a precisão do golpe seja executada com sucesso

No Amakakeru Ryu no Hirameki,a espada é desembainhada com o pé esquerdo adiante, o que constitui uma antecipação do movimento original de sacar a espada, pois, normalmente, é preciso realizar a manobra avançando o pé direito, Proporcionando assim um Battoujutsu mais veloz ainda. Para executar o Amakakeru Ryu no Hirameki, é impresindível que esteja em boas condições físicas, isso é a única limitação da execução do golpe. que é constituído de 3 partes



agora são usados para salvar vidas, afirmando que proibiu a si mesmo de matar, daí a explicação para portar uma sakabatou, pois sua lâmina invertida faz com que os ferimentos provocados com ela nunca sejam
fatais. A partir desse momento, Kenshin passa a viver no dojo Kamiya, iniciando uma série de

Aventuras, intrigas e reviravoltas.
Ao longo do enredo, Kenshin Himura faz inúmeras amizades, algumas notáveis, como
Yahiko Myoujin, um menino órfão proveniente de uma família de ex-samurais de Tóquio e cujo pai
era membro do Shougitai 6; e Sanosuke Sagara, conhecido como Zanza, um ex-membro do
sekihoutai, uma antiga tropa composta por pessoas oriundas das camadas sociais mais humildes que
lutava pelo fim do Shogunato e pela instauração de uma sociedade mais igualitária. No entanto,
2 Mestre Substituto, que dá aulas em nome do Mestre do estilo.
3 Academia de artes marciais.
4 Assassino.
5 Literalmente, “Final do Shogunato”.
6 Um exército de leais ao Shogunato que não reconheceu a tomada de Edo (Tóquio) pelos Monarquistas. Eles se
aquartelaram no Monte Ueno até serem derrotados em maio de 1868.
Kenshin enfrenta também ao longo da trama diversos e poderosos inimigos, destacando-se o exmonarquista
Makoto Shishio e Enishi Yukishiro, este último buscando vingança pela irmã
supostamente morta por Battousai.
Figura 1: capa da edição brasileira nº 17 de Rurouni Kenshin (Samurai X). Figura 2: WATSUKI,
Nobuhiro. Rurouni Kenshin. São Paulo: Japan Brazil Comunication (JBC), 2004, p. 56.
Rurouni Kenshin apresenta uma narrativa não-linear, caracterizada por muitas “idas e
vindas”, basicamente girando em torno de Kenshin e de seu passado como Battousai, passado este
que Kenshin, mesmo que tenha mudado o propósito de sua vida, não consegue se desvencilhar por
completo. Esse passado e a transformação de Kenshin em Hitokiri Battousai são mais
profundamente explicados durante a saga de Enishi Yukishiro. Enishi acusa Kenshin de ter
assassinato sua irmã Tomoe Yukishiro e começa, junto com seu grupo, composto por mais cinco
homens sedentos por vingar-se de Battousai, a atacar diretamente os locais e entes queridos por
Kenshin. Inicia-se o que Enishi denomina de Jinchuu, a justiça dos homens, já que a Tenchuu, a
justiça dos deuses, não cumpriu sua tarefa de punir Battousai, cabendo aos homens, neste caso o
grupo de Enishi, realizar essa missão.
Nessa parte da trama, Kenshin sofre uma crise de consciência, tentando buscar algum modo
de expiar seus crimes do passado. Mergulhado nesse caos existencial, Kenshin começa a contar em
detalhes, pela primeira vez no enredo, o seu passado para seus amigos Kaoru, Sanosuke, Yahiko e
Megumi, revelando a eles que a irmã de Enishi, Tomoe, era sua esposa e por sua culpa ela morreu.
Nesse momento a história volta 10 anos, ápice da crise do shogunato e da confrontação de forças
entre os “monarquistas” e os defensores do regime shogunal.Vale ressaltar que o marcante nessa
passagem é o mergulho no período do Bakumatsu, com Nobuhiro Watsuki brilhantemente nos
proporcionando uma verdadeira aula de história deste conturbado período representado pela
sangrenta guerra civil.
Com a derrocada do shogunato e a consolidação da Restauração Meiji em 1868, o novo
governo tinha como objetivo primordial a modernização das estruturas sociais, políticas,
econômicas e culturais do Japão. Para concretizar esse objetivo, a palavra-chave era
“ocidentalização”. Em outras palavras, o grupo majoritário que encabeçava o governo Meiji
reconheceu que para “salvar” o país e preservar o regime, era necessária uma substancial
transformação que passasse por uma ocidentalização sistemática. “A força motriz era a
ocidentalização. O Ocidente possuía claramente o segredo do sucesso e, portanto, precisava ser
imitado a todo custo” (HOBSBAWM, 2005, pp. 217-218).
No decorrer da obra, vemos como a ocidentalização promovida pelo governo Meiji afetou,
de modo transformador, hábitos e costumes japoneses, como cortes de cabelos, estilos
arquitetônicos, dentre outros. "A abertura cultural da Era Meiji influenciou também a gastronomia,
introduzindo diversos pratos novos no cardápio" (WATSUKI, Rurouni Kenshin, nº 2, p. 30),
surgindo o gyunabe, restaurante especializado em comida ocidental, retratado no mangá pelo
restaurante Akabeko, o preferido por Kaoru Kamiya. Uma das maiores inovações na gastronomia
japonesa foi a introdução da carne de boi (os japoneses não comiam carne até então), sendo que
pratos como o sukiyaki7 eram facilmente encontrados nesses restaurantes.
Para alguns dos partidários da ocidentalização não havia limites, propondo inclusive o
abandono de tudo que fosse japonês, pois a modernização implicava a negação do passado, que era
visto como atrasado e bárbaro. Nesse contexto, setores das elites dirigentes e intelectuais do "novo"
Japão abraçaram a teoria do racismo social-darwinista, perdendo as esperanças em "seu" povo e
sonhando com uma transformação biológica da população japonesa, que a tornasse receptiva ao
"progresso", exemplificado pelo projeto de "cruzamento maciço com brancos" (HOBSBAWM,
2006, p. 401).
Outro aspecto relevante presente em Rurouni Kenshin são os projetos derrotados ou
frustrados de grupos, como os adeptos da democracia liberal ou a tendência xenófoba, que lutaram
contra o shogunato pela transformação efetiva do Japão. Após a "Restauração Meiji", esse "novo"
Japão não se concretizou ou não se verificou condizente com as propostas que cada um desses
7 Prato com carne de boi e legumes cozidos, servidos com arroz e ovo cru.
grupos carregava, explicitando que mesmo após o fim do shogunato o Japão ainda possuía uma
sociedade bastante fragmentada social e politicamente.
No mangá, um dos expoentes desse descontentamento contra os rumos da chamada Era
Meiji é o ex-monarquista e também ex-retalhador Makoto Shishio. A filosofia de Shishio baseia-se
na sobrevivência do mais forte como a lei suprema deste mundo, defendendo "para os fortes, a
vida; para os fracos, a morte" (WATSUKI, nº 31, p. 40). Líder do grupo Juppongatana, Shishio foi
traído pelos monarquistas, os quais, após a instauração do governo Meiji, tentaram assassiná-lo
queimando-o vivo. Contudo, Shishio consegue sobreviver, e mesmo com praticamente todo o corpo
queimado, busca muito mais que uma simples vingança: ele pretende, através de sua organização
Juppongatana, tomar o controle do Japão, aplicando seus princípios neste seu futuro/pretendido
governo, que teria como meta o fortalecimento total do Japão frente às demais nações. Seu braço
direito da Juppongatana, Houji, defende que para que o Japão fosse realmente forte, o governo
deveria ser composto por homens com os ideais de Shishio:
Na situação mundial atual, onde os países fortes do Ocidente estão transformando
os do Oriente em suas colônias, não há saída para o Japão a não ser tomar a
iniciativa e se tornar mais forte que os países do Ocidente. Para isso, é necessário
um homem forte para centralizar o poder em suas mãos. E é por isso que os tempos
necessitam de um homem como Makoto Shishio (WATSUKI, Rurouni Kenshin nº 32,
pág. 52).
É nesta parte que notamos a semelhança entre o projeto político de Shishio e as dissidências
conservadoras que buscavam a limitação dessa "ocidentalização", juntamente com o fortalecimento
do Japão no âmbito na dinâmica imperialista. De acordo com Hobsbawm,
No lapso de duas décadas surgiu uma reação contra os extremos da ocidentalização
e do liberalismo, parcialmente com a ajuda da tradição crítica ocidental do
liberalismo, como a alemã, que ajudou a inspirar a constituição de 1889, em grande
parte uma reação neotradicionalista que iria virtualmente inventar uma nova
religião do Estado, centrado no culto ao imperador, o culto Shinto. Foi essa
combinação de neotradicionalismo e modernização seletiva (...) que prevaleceu.
Mas as tensões entre aqueles para os quais a ocidentalização implicava revolução
fundamental e os outros para quem ela significava apenas um Japão forte
prevaleceram. A revolução não iria ocorrer, mas a transformação do Japão num
formidável poder moderno tornou-se realidade (HOBSBAWM, 2005, p. 219).
De fato, mesmo permeado por constantes disputas e tensões internas, o Japão conseguiu se
constituir em um Estado forte e bem-sucedido tanto interna quanto externamente, tornando-se na
virada do século XIX para o XX "um lobo entre os lobos" (Ibidem). De uma nação ameaçada pelo
imperialismo ocidental para uma nação imperialista: eis a grande transformação do Japão no
cenário internacional.
Superadas as dificuldades internas decorrentes do período pós-shogunato e concretizado o
novo regime, a política externa japonesa começa a exigir igualdade nas negociações internacionais e
adota um tom agressivo para satisfazer os interesses nipônicos de expansão comercial e territorial.
Os primeiros tratados comerciais com as potências ocidentais, concluídos em meio aos conflitos
característicos do fim do shogunato passam a ser questionados, com o governo japonês alegando
que foram assinados de forma unilateral, a partir das pressões das forças estrangeiras, e afirmando
que favoreciam exacerbadamente as outras partes em detrimento do Japão. A desvantagem japonesa
justificaria a eliminação desses tratados, vistos como “injustos” pela opinião pública e pelo governo
japonês. Após muitas negociações são concluídos acordos com os Estados Unidos, Alemanha,
França e outros países, os quais reformulam esses tratados, fazendo com que o Japão atinja seus
objetivos, ainda que de forma não integral, destacando-se o fim do direito de extraterritorialidade
concedido às potências ocidentais, além de promover uma recolocação de destaque do país no
quadro das relações político-econômicas internacionais.
Após essa etapa, inicia-se a expansão imperialista japonesa. Ocasionada por atritos
envolvendo a cobiça japonesa na península coreana, a Guerra Sino-Japonesa (1894-95), vencida
pelo Japão, demonstra ao mundo a evolução deste país, que obtém com o tratado de paz
consideráveis concessões territoriais chinesas. Mas a surpresa maior para o Ocidente ocorreu com a
surpreendente – e fulminante – vitória japonesa sobre a Rússia na denominada Guerra Russo-
Japonesa (1904-05), eclodida por causa de disputas na Manchúria e península coreana entre os dois
países. Era a primeira vez na história que uma potência ocidental era derrotada por uma nação nãoocidental
em uma guerra de proporções relativamente grandes. Com a vitória, o Japão obtém o
direito de domínio na Coréia, transformando-a em seu protetorado, além de iniciar sua penetração
na Manchúria, uma região rica em minerais, e também na própria China, inaugurando uma fase de
décadas de expansão sobre o Sudeste Asiático, que somente seria interrompida com a derrota
japonesa na Segunda Guerra Mundial.
A Era Meiji não contemplou todos os sujeitos e grupos sociais de modo uniforme. Muitas
pessoas se viram desalojadas de seus espaços de sociabilidades, modos de vida e práticas de
trabalho, portanto, desestruturando suas relações sociais e suas próprias vidas como um todo. Como
Watsuki nos lembra,


                                              


as mudanças ocasionadas pelo final do shogunato e o início da era Meiji se
refletiam nas vidas das pessoas. Nem todos foram beneficiados pela chegada dos
novos tempos. Algumas pessoas forma abandonadas pelo mundo. Outras
abandonaram o mundo (WATSUKI, Rurouni Kenshin, nº 47, p. 33).
Os samurais e, principalmente, os camponeses foram os mais prejudicados com a nova era.
Em 1871, o país se dividiu em províncias (ken), abolindo-se os han (feudos). Com o Regulamento
da Propriedade da Terra, elaborado em 1873, foi estabelecido o compromisso individual e não
comunal em relação aos impostos, definindo direitos de propriedade individuais e o direito de
venda. O governo tomou posse da propriedade comunal, desestruturando modos de vida,
sobrevivência e práticas de trabalho da grande maioria dos camponeses, deixando-os à mercê dos
ricos proprietários de terras, ao mesmo tempo em que a base econômica dos antigos nobres e
samurais, fundamentada na cobrança e arrecadação de impostos em koku8, foi perdendo cada vez
mais a sua importância. Ainda que o governo Meiji permitisse alguns pequenos “benefícios” aos
camponeses, como a permissão de usar sobrenomes, algo que era proibido durante o shogunato, as
condições no campo eram cada vez mais degradantes.
Os samurais também foram afetados pelo decreto baixado em 1876 que proibia o porte de
espadas no Japão e pela Lei do Serviço Militar (1873), que introduziu o serviço militar obrigatório,
abolindo "os últimos vestígios de separação e distinção de status dos samurais como classe"
(HOBSBAWM, 2005. p. 217). No mangá, especialmente em sua fase inicial, não são poucas as
vezes que Kenshin é surpreendido pelas forças policiais por portar uma espada, mesmo que ela seja
uma sakabatou, sendo, de acordo com o decreto de 1876, ameaçado de ser preso por cometer tal
“crime”. Veja que o porte de espadas, antes um símbolo de poder e status dos samurais durante
séculos, passa a ser considerado, a partir do governo Meiji, uma infração grave e ilícita,
desestruturando em certa medida relações sociais e hierárquicas constituídas sob o regime
Tokugawa que estavam alicerçadas de modo profundo na sociedade japonesa, desagradando os
samurais e contribuindo para o aumento das tensões e conflitos no âmbito do regime Meiji. Tal
situação conflituosa pode ser melhor expressa em dados concretos: ocorreu cerca de 30 levantes
camponeses por ano entre 1869 e 1874 e uma importante rebelião samurai em 1877.
Com a pauperização da vida dos camponeses, muitos migram para as cidades em busca de
melhores condições sociais, mas poucos conseguem ascender socialmente, passando a engrossar as
fileiras dos desempregados e miseráveis urbanos. Surge também, a partir da abertura dos portos, a
possibilidade de emigração para o exterior. Diversos países receberam imigrantes japoneses, dentre
eles o Brasil, que a partir de 1908, quando chegou a primeira leva de imigrantes a bordo do (hoje
histórico) Kasato Maru, tornou-se um dos países mais visados para esse tipo de iniciativa, cujos
destinos geralmente eram os cafezais de São Paulo que necessitavam de vasta mão-de-obra. Em
suma, no final do século XIX e início do XX, muitos camponeses e desempregados são obrigados a
deixar o Japão frente às inúmeras dificuldades econômicas resultantes da chamada “modernização”
empreendida pelo governo Meiji, pautada pelo seu caráter conservador e excludente de grande
parcela da população, especialmente as camadas mais pobres.
O aspecto mais valioso dessa obra de Nobuhiro Watsuki é que ela é baseada em fatos
concretos que marcaram a trajetória japonesa, trazendo, deste modo, informações valiosas sobre a
sociedade, cultura e a própria história do Japão. A grande maioria dos personagens é baseada em
8 Unidade de medida de capacidade, mais ou menos equivalente a 180 litros. Fundamentalmente, servia para medir a
quantidade de arroz. Por exemplo, durante o regime Tokugawa, a medida da terra se expressava em termos de koku por
unidade de superfície cultivada, e todas as colheitas de cereais ou de outros cultivos eram reduzidos a um equivalente
teórico em arroz. O valor senhorial de um feudo era o total de todas as colheitas nas terras cultivadas desse feudo,
expresso na quantidade teórica de arroz. Ver: AKAMATSU, p. 294.
sujeitos que participaram ativamente de um período marcante para a história nipônica, representado
pelo fim do shogunato e a instauração do governo Meiji.
É evidente que, enquanto historiadores, nosso dever seja problematizar e analisar de forma
crítica e reflexiva todos os tipos de fontes, incluindo obras ficcionais. Mesmo assim, essa verdadeira
obra-prima dos mangás possui um valor histórico inegável, na medida em que nos oferece
informações sobre uma época de extrema complexidade e importância que foi a chamada Era Meiji,
na qual múltiplos sujeitos sociais e projetos políticos conflituaram-se, expondo as fraturas dessa
sociedade permeada por tensões e disputas entre os diversos grupos que integravam a sociedade
japonesa naquele momento.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AKAMATSU, Paul. Meiji – 1868: Revolución y contrarrevolución em Japón. Historia de los
Movimientos Sociales. México, España y Arge ntina: Siglo Veintiuno Editores, 1977.
BENEDICT, Ruth. O Crisântemo e a Espada: padrões da cultura japonesa. São Paulo: Editora
Perspectiva, 2ª edição, 1988.
HOBSBAWM, Eric J. A Era do Capital:1848-1875. São Paulo: Paz e Terra, 11ª edição, 2005.
_________________. A Era dos Impérios: 1875-1914. São Paulo : Paz e Terra, 10ª edição, 2006.
WATSUKI, Nobuhiro. Rurouni Kenshin: Samurai X. Vols. 1-56. São Paulo: Editora JBC, 2004.
YAMASHIRO, José. Japão: passado e presente. São Paulo: IBRASA, 2ª ed., 1986.
AGE MEIJI SEEN FROM MANGA RUROUNI KENSHIN:
MODERNIZATION, TENSIONS AND DISPUTES IN THE CONSTRUCTION
OF “NEW” JAPAN
Fonte: Tarcílio Divino Nunes
Federal University of Uberlândia (UFU). Street Antônio de Castro Andrade, nº 293, Jardim Ozanan, Uberlândia/MG.

[Resenha] Escritores da liberdade







Escritores da liberdade


ESCRITORES DA LIBERDADE. Direção: Richard Lagravenese. Produção: Richard Lagravenese. Roteiro: Richard Lavagranese, Erin Gruwell, Freedom Writers. Elenco: Hillary Swank; Patrick Dempsey; Scott Glenn, Imelda Staunton; April Lee Hernandez; Kristin Herrera; Jacklyn Ngan; Sergio Montalvo; Jason Finn; Deance Wyatt. EUA/Alemanha, 2007. Duração: 123 min. Genero: Drama.

Resumo
O filme é baseado em fatos reais, e narra a história de Erin Gruwell, uma professora recém formada que no ano de 1994 vai lecionar literatura para a turma nº203 1º ano do 2º Grau, do Colégio Wilsom, descobre que a educação naquela escola não era como a teoria aplicada na faculdade.
A turma era heterogênea e toda a região do entorno escolar era dividida em gangues étnicas, e isso faziam com que as disputas territoriais viessem para dentro do ambiente escolar. A professora G, como também era chamada pelos alunos de sua turma, nota a indiferença que os alunos têm pelo ensino, pois para eles ela é apenas mais uma professora iniciante que não se importa com eles e tem o ensino como um mero trabalho, ela começa a utilizar as características comuns às vidas deles para lhes ensinar a matéria, fazendo com que eles se interessem um pouco mais.
Erin Gruwell leva até a direção da Escola a dificuldade encontrada em sala de aula, e também é ignorada inclusive pela direção da escola. Mais Erin não desiste, chega a sala de aula com uma proposta de trabalho que se identifica com os alunos, tenta primeiro a musica depois o conflito entre gangues atividades que acabam tocando suas consciências
Cipriano Luckesi em seu livro Avaliação da Aprendizagem Escolar, fala sobre a avaliação diagnostica, e as possibilidades que o educador pode usar para identificar potencialidades e atributos que os alunos possuem e utilizá-los no processo de aprendizagem.
A professora cria um projeto de leitura e escrita, iniciado com a leitura do livro “O Diário de Anne Frank”, em que os alunos poderão registrar em cadernos, (material comprado e doado por ela), o que quiserem sobre suas vidas, relações, interações, idéias de mundo, leituras, e diz: que se alguém quiser que ela leia o material o deixe em um armário que havia na sala; após ler o material, toma conhecimento do modo de vida dos alunos, sua história, seu cotidiano, suas lutas internas e vocabulário, ela usa isso para adentrar em temas de cunho histórico e que abordassem a violência e tensão racial em que eles vivenciavam tão bem, tal método é abordado por Paulo Freire em suas rodas de conversa, em seu Livro Pedagogia do Oprimido, FREIRE afirma que os alunos saem da condição oprimidos e iniciam no campo das possibilidades, ao lutarem pelos seus ideais, pelas suas conquistas ao enfrentarem os obstáculos, não mais com a violência, mais com o conhecimento.
Um dos temas principais tratados no filme é a valorização da educação, o diretor Richard Lagravanese, apresenta um contexto da educação existentes nos anos 90 nos EUA e que podemos notar em varias escolas brasileiras, ele aborda as dificuldades que alguns professores comprometidos com o ensino e a valorização do aluno enfrentam, tais como: falta de compromisso do corpo docente, ideologias do sistema educacional, e falta de recursos para educação.
O filme mostra uma educação voltada para o aluno e seu desenvolvimento social e problemas do entorno escolar, sobre como formar o aluno como ser pensante critico e atuante em sua sociedade. Erin Gruwell não se ocupou apenas em preencher cadernetas ou formulários, bater cartão e transmitir conteúdos pré fixados, ela foi alem, doou-se a sua causa pessoal, a melhora na qualidade ensino e nas relações entre professor e aluno, mudando a vida de todos, levando algum significado a suas existências, segundo Lawrense Stenhouse, educador inglês; tanto o professor quanto o aluno devem compartilhar a mesma linguagem e o educador não deve ter medo de aprender, para ele o educador deveria assumir o papel de aprendiz e que o ensino mais eficaz se baseia em pesquisa e descoberta, o filme apresenta cenas de discussões em sala de aula coisa e que os alunos deveriam chegar a um consenso, algo que para Lawrense deve ser o objetivo do educador.
Erin Gruwell é hoje a presidente da Freedom Writers Foundation que tem como objetivo promover publicamente e de forma sistemática uma filosofia educacional que homenageia a diversidade na sala de aula, sua pagina na internet é: http://www.freedomwritersfoundation.org.
“A educação não Transforma o mundo, educação muda as pessoas. E as pessoas Transformam o mundo” (Paulo Freire)
O livro Escritores da liberdade foi publicado em 1999.

Problemas abordados:
Socialização
Violência
Desenvolvimento escolar
Descaso do corpo docente
Ideologias sistema educacional
Conflitos Raciais
Desigualdades nas classes sociais;
Racismo;
Desemprego;
Desestrutura familiar;
Intolerância ao que é diferente;
Políticas públicas sem uma função de fato;
Exclusão social;
Políticas geradoras de sujeitos apenas com capacidade funcional

Resumo Filme: Pro dia nascer feliz





Resumo
Filme: Pro dia nascer feliz
Diretor: João Jardim
Duração 82 min.

O diretor João Jardim faz um documentário crítico onde expõe as varias faces da educação brasileira, através de relatos e depoimentos de professores e alunos, ele procura mostrar de forma direta e real os desafios e problemas, enfrentados por professores e alunos da rede publica e privada.
Abordando de maneira direta os assuntos relacionados a preparo e segurança, o diretor procura mostrar a duabilidade socioeconômica expressa de forma gritante na educação, para isso o autor mostra a dura realidade dos alunos da rede publica do interior de Pernambuco, ate a cobrança dos estudantes da classe média da região sudeste.
Em Pernambuco depoimentos de alunos mostra a dura realidade da educação com falta a de professores e desmotivação do corpo docente, os alunos e professores tem de conviver em prédios sucateados e sem infra-estrura, algo que no Brasil chega a 13.7 mil escolas, dentre as quais 1,9 mil não tem água: na região sudeste do país, em locais como Rio de Janeiro e São Paulo os problemas mais freqüentes são a falta de segurança publica e drogadição ativa na comunidade e entorno da escola, também a cobrança psicológica feita pela necessidade de ascensão social da classe media.
a obra de João Jardim revela a dificuldade que há em avaliar o complexo labor travado pelos educadores diante da imensa carência das escolas, tanto no âmbito estrutural como na falta de suporte psicológico. Chega-se à conclusão de que as escolas brasileiras estão doentes, beirando a um coma, e não há vontade política para prestar socorro ao moribundo.
O filme expõe trechos que nos fazem refletir sobre o que somos, e o que queremos, e o que faremos, para mudar o contexto da educação Brasileira.
Em Pernambuco vemos uma aluna sendo julgada pelo conteúdo de seus escritos, seus professores chegam a conclusão de que o texto produzido não é de sua autoria devido ao contexto sério e pela abordagem coesa de seus escritos.
Como acreditar que em um lugar onde nem ao menos uma escola de segundo grau existe, onde chegar a escola é uma batalha, onde o transporte de alunos é feito de forma precária, e que a evasão escolar chega a ser alarmante possa gerar texto com conteúdo tão sério.
No Rio de Janeiro e São Paulo nas comunidades carentes, os alunos ficam expostos a falta de segurança chegando ao ponto de uma aluna esfaquear a outra em plena escola e se sentir feliz por isto, tal aluna em questão, chega ao cumulo de ser irônica; dizendo que apenas adiantou sua morte, pois um dia ela iria morrer mesmo. Enquanto um outro aluno é aprovado sem nem ao menos saber o conteúdo da matéria.
Por outro lado em locais mais privilegiados os problemas são outros porem não deixam de ter maior valor, haja vista, a complexidade do assunto, os alunos de escolas particulares se vêem pressionados por professores e familiares para darem o seu melhor pois carregam em sua história um nome e um legado.
Vemos que o governo procura fazer a sua parte e que a educação tem feito alguns avanços:
O governo investe na capacitação de professores, abre vagas para a universidade com programas como o pró-uni, promove cursos extra curriculares de cultura e musica com o objetivo de retirar o jovem do contesto violento e fatídico a que esta exposto, em escolas mais bem estruturadas e escola vira ponto de encontro da comunidade, fazendo a família estar mais próxima do ambiente escolar.
O contexto geral da educação brasileira pode ser mudado, basta os governantes investirem na conservação das escolas dando ao aluno dignidade, investindo nos lugares onde há uma precariedade, não só na preparação do corpo docente, mas também na infra-estrutura básica que garanta ao aluno uma identidade de respeito, capacitar e avaliar o aluno como ser humano e não apenas como um mero numero ou estatística.
Emfim a educação brasileira em seus primórdios tinha a finalidade de escravizar e colonizar, hoje porem com os avanços tecnológico e industriais fazem, com que o ser humano seja escravo do sistema, que deseja que ele seja apenas um número, que compõe um eleitorado, sem noção alguma de suas responsabilidades.
Como educador, vejo que e preciso fazer com que a educação cumpra seu papel primordial que é o de formar um ser humano pensante e feliz, apto par tomar suas decisões e decidir sobre seu futuro e o de sua comunidade.

Celso Ferreira dos Santos